quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Sem muitas palavras...

Pressupondo que alguém se interesse em ler essas considerações, desde já, advirto o destemido leitor sobre o tema. Trata-se de reflexões sobre a comunicação no mundo atual. O fato mesmo de que alguém possa estar lendo essas observações de pretensão filosófica, escritas por um ilustre desconhecido, pode dar a entender que estamos vivendo um período sem precedentes na história das relações humanas, onde todos podem se expressar livremente e se conhecer melhor sem as restrições do espaço-tempo, numa comunhão fraterna de idéias e ideais.

Não acalento essa opinião. O momento histórico é, sim, inédito em relação aos avanços tecnológicos, que possibilitam atos comunicativos entre os homens do mundo todo, como se fossem da mesma aldeia. Mas o aperfeiçoamento dos meios não é condição única para que se estabeleça a comunicação entre seres humanos. Simplificadamente, sabe-se da necessidade de pelo menos mais três elementos: o emissor, o receptor e a mensagem.

A pessoa que fala é a mais importante porque depende dela o esforço inicial de atrair a atenção de um ouvinte. Houve época em que era comum, nos homens mais sensatos, a prudência no falar a fim de se evitar um possível incômodo a um receptor qualquer. Julgava-se que nem todos estavam dispostos a ouvir qualquer coisa. É quando acreditava-se que a palavra tinha valor e, portanto, não podia ser gasta a não ser em assuntos realmente de interesse comum entre os interlocutores. Isso estimulava os indivíduos a refletirem mais antes de se expressar. Ao inverso da personagem Ofélia, de um programa humorístico televisivo, só abria-se a boca quando se tinha certeza”.

Chegou a era da informação. O avanço dos meios de comunicação promoveu o tagarelismo como direito geral e desobrigou os emissores do cuidado com a palavra. Havia, na antiguidade, um consenso de que para a expressão das idéias, com um mínimo de exatidão, exigia-se um preparo intenso, no mínimo, o estudo da língua. Por expressão de idéias, entenda-se a transmissão de mensagens mais elaboradas que as do cotidiano, frutos de cadeias sutis de raciocínios e que teriam alguma utilidade, como um contrato, uma oração, um discurso, uma obra de arte, um tratado etc. Para as necessidades básicas do dia a dia, qualquer linguagem basta, até gestos. Era o que o filósofo alemão Eugen Rosenstock-Hussey chamava de linguagem pré-formal em contraste com a linguagem formal utilizada pelos “maiores e mais sábios espíritos de todos os tempos”.

Mudando de tal modo esse contexto, não é de espantar-se que o ensino da língua tenha se tornado tão espinhoso para o sistema educacional; um problema mundial. Numa sociedade em que todos se acreditam sábios o suficiente para emitir opiniões sem a menor preocupação com uma reflexão anterior, sem uma acareação das idéias com os fatos, ou seja, sem o menor respeito ao princípio da verdade, aprender a “língua formal” é um esforço desnecessário. O resultado dessa tendência é o empobrecimento lexical do idioma e sua corrupção por formas gramaticais estrangeiras, como o fatídico “gerundismo”, já tão em moda.

É evidente que as quatro habilidades básicas de uma língua – ouvir, falar, ler e escrever - estão intimamente relacionadas. E se o indivíduo perde a capacidade de falar, automaticamente incapacita-se também para ouvir. Aquele que não valoriza ou não se preocupa com o que fala, provavelmente menospreza ainda mais o que ouve. A mesma relação vale entre o ler e escrever. A prova cabal disso é o absurdo índice de analfabetismo funcional – situação em que o indivíduo é “alfabetizado”, mas não consegue entender plenamente o que lê - existente no mundo. No Brasil, onde a situação é mais crítica, o percentual de pessoas que apresenta grande dificuldade na leitura ou não consegue ler nada chega a 75%, segundo pesquisa do Ibope feita em 2005. Não há razão para acreditar que esse índice tenha melhorado em dois anos.

O cenário atual apresenta uma oferta excessiva de informações, em que predominam as de má qualidade, inúteis ou perniciosas mesmo, disponíveis para um amplo público cada vez mais deficiente na capacidade de garimpar a verdade. Essa falha essencial ocorre tanto pelo desconhecimento e/ou abandono dos instrumentos intelectuais necessários para a compreensão e expressão da realidade, sobretudo a lógica e a gramática, como pela intoxicação ideológica esquerdista, que, sob a bandeira da “inclusão”, pretende mesmo é excluir a maioria da população da possibilidade de acesso ao acervo cultural produzido pelos mais sábios homens da história.

Experimente convencer algum jovem de hoje a ler e refletir sobre um texto de Aristóteles, de Immanuel Kant ou de Rui Barbosa e entenderá o que estou dizendo. Sem que as massas conheçam a grandeza do pensamento desses luminares da cultura humana, fica mais fácil para os engenheiros sociais, que abundam nos órgãos governamentais brasileiros e internacionais, empurrarem seus pífios planos de “sociedade mais justa” pela goela da humanidade já anestesiada com o excesso de mentiras. Como escreveu o genial poeta norte-americano T.S. Eliot: “A desintegração cultural é a desintegração mais radical que uma sociedade pode sofrer”.

E é desse modo que concluo minhas considerações pessimistas, temeroso de que o que se possa ver como um avanço nas relações entre os homens, a era da comunicação, seja apenas, como já se anuncia, uma era de discórdias, separações, ignorância e, ao fim, o retorno à barbárie.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

COMENTÁRIO CONSTRUTIVO



“Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.”
A Última Nau – Fernando Pessoa

Fiat Lux é uma expressão latina de profundo cunho filosófico e metafísico. A frase bíblica, traduzida como “faça-se a luz”, sintetiza o ato da criação. É um tema que ocupou a mente dos homens intelectualmente mais brilhantes do nosso mundo, de Parmênides a Leibniz, passando por São Tomás de Aquino, e continua presente, mesmo nas manifestações culturais mais inesperadas da atualidade, como nas Histórias em Quadrinhos, no cinema e nos livros de Ficção Científica.
Filosoficamente, o assunto é especialmente pertinente à classe artística, que goza do status de criadora por excelência. Isso é tão significativo para mim, que o fato de não ter me aprofundado o suficiente nesse debate de gigantes pelas dobras dos séculos, faz refrear algumas pretensões artísticas que a vaidade possa me insuflar. Ainda assim, pelo pouco que consegui absorver do tema, parece-me claro que, no campo da atuação humana, toda criação parte de uma realidade preexistente para uma supra realidade imaginada. É esse mesmo o conceito original de Poesia desenvolvido por Aristóteles e que abarcava a criação artística em geral. Nesse sentido, o gênio do artista concebe mentalmente a sua obra a partir da readequação dos dados concretos acumulados pela sua experiência e capacidade de observação. O resultado final ou a manifestação criativa surge, então, como uma readequação ou recomposição da realidade em que é possível distinguir criador, matéria-prima e criatura.
O conceito do ato criativo a partir do nada – creatio ex nihilo - só surgiu com a tradição hebraica cristã e já penetra na esfera da divindade. São Tomás de Aquino explora isso à exaustão. Somente Deus pode emanar de Si uma substância plástica que serve de matéria para o universo concreto. É ao mesmo tempo, o moldador, o molde e a obra moldada, numa síntese abstrata que remete à Santíssima Trindade.
O assunto é estupendamente vasto e profundo e requereria milhares de palavras mais sábias que as minhas, portanto vamos entrar na questão que me interessa particularmente. Considerando a impossibilidade humana da criação a partir do nada, fica notória a necessidade permanente de preparação do artista para abastecer de experiências seu banco de dados mental de onde a imaginação retirará a base para criar a obra de arte como conceito e plano. A etapa seguinte é a concretização da idéia através da técnica artística, que pode ser a escultura, pintura, escrita, dramaturgia etc.
Transpondo este discurso para a realidade, o que observo é o crescimento desproporcional dos artistas no campo da técnica. Nós temos atores ecléticos, músicos e instrumentistas virtuoses, cineastas engajados, artistas plásticos premiadíssimos, escritores atuantes e por aí vai. Isso é muito bom, mas não acho que seja suficiente. Faltam criadores, na acepção maior do termo. E por mais que os agentes culturais discutam questões como identidade, inovação, tradição etc., acredito que a solução para esses temas passa mais pela área da criação do que da técnica.
Também não creio que esse problema seja uma particularidade local ou regional, mas uma anomalia geral que assola o país e, por que não dizer, o mundo. O ato criativo está em crise. Falta-me a erudição necessária para rastrear suas origens mais remotas, mas tenho independência e clareza mental suficientes para detectar que uma das bases do problema é o relativismo desconstrucionista, que vampiriza a inteligência de grande parte da intelectualidade.
Ora, a mente humana procede internamente apenas num caráter ordenativo, organizando os dados caóticos captados pelos sentidos em categorias que servem, posteriormente, para alimentar a memória e a imaginação, entre outras funções psicológicas. Tradicionalmente, o trabalho intelectual, incluindo o de artistas, tinha como preocupação maior absorver esses dados diretamente e o mais fielmente possível da realidade. Desse modo, era possível construir hipóteses e obras a partir de um universo concreto e que, por isso, ajustavam-se ou correspondiam às possibilidades cabíveis em um mundo real. Dizia Aristóteles que a função da Arte é representar o possível e, com isso insere a Poética no conjunto dos discursos aristotélicos, junto com a retórica, que trata do verossímil; a dialética, que versa sobre o provável; e a lógica ou analítica, que é a demonstração certa de um silogismo. Isso foi previsto pelo filósofo islâmico Avicena e comprovado pelo brasileiro Olavo de Carvalho em Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos (Rio, É Realizações, 2006). Nesse sentido, o poético e o dito científico são etapas distintas do discurso humano, mas de igual importância para a formação das consciências individuais e do conjunto do pensamento e ação coletivos que chamamos cultura.
A partir do momento em que nega a veracidade dos dados reais, o Desconstrucionismo libera a mente para criar, a partir do nada, as bases que a inteligência utilizará para produzir conhecimento. O resultado menos maléfico disso é a subversão da ordem natural das coisas. Por mais fantasiosa que seja uma obra, o público receptor, conscientemente ou não, consegue captar dali os pressupostos da realidade que, recombinados, lhe serviram de tijolos estruturais. Exemplo: por trás de toda a grandiosidade imaginativa de O Senhor dos Anéis, do escritor inglês John R. Tolkien, não tem como negar a presença de valores cristãos, amalgamados à mitologia e à lingüística anglo-saxã. Ou seja, duas forças culturais que, historicamente, moldaram o povo inglês.
Pois bem, na medida em que deixa de ser simulacro da realidade - simulacro não é cópia fiel de algo, mas uma recriação a partir de um original pré-existente – a arte não apenas deixa de ser aplicável positivamente ao real, mas induz, inconscientemente, à crença num pseudo-universo existente apenas na cabeça do criador desconstrucionista. Nesse relativismo geral, qualquer um pode dar à luz sua própria fantasia autogerada, transformando o conjunto social em um caos, onde os fatos e fenômenos nada mais significam e toda tentativa de ordem dissolve-se na barafunda mental reinante. Isso é fatal, especialmente para os jovens, que não têm como perceber uma cultura condizente com a realidade observável que lhes sirvam de base de aprendizado e de ponto de partida para o futuro.
Todo esforço civilizante dá-se no sentido de estabelecer valores que se sobreponham aos instintos animais presentes no homem. É natural que essa própria natureza dúbia do ser humano seja um empecilho à concretização da civilização perfeita, criada pelo uso sublime da razão e mantida à duras penas no processo histórico. É ainda lógico que se o intelecto renega as bases da civilização, sua cria, tende a retornar à animalidade intrínseca do homem, agora potencializada pela inteligência. É o retorno ao domínio total dos instintos, à barbárie, como já profetizou o filósofo Mário Ferreira dos Santos.

“Na verdade, a invasão que é a penetração gradual e ampla dos bárbaros não só se processa horizontalmente pela penetração no território civilizado, mas também verticalmente, que é a que penetra pela cultura, solapando os seus fundamentos, e preparando o caminho à corrupção mais fácil do ciclo cultural, como aconteceu no fim do império romano, e como começa a acontecer agora entre nós." (A invasão vertical dos bárbaros)


Admitindo-se que a criação a partir do nada é impossível para a estrutura funcional da mente humana, a imaginação do artista desconstrucionista, para agir, é obrigada a recorrer aos substratos inconscientes da nossa herança animalesca. Com isso, negligencia os compromissos com a realidade e com os princípios superiores que dão coesão à nossa aventura civilizacional e foca apenas o interesse egoístico; isso quando não se perde na bestialidade dos instintos. Tal atitude explicaria a grosseria das manifestações artísticas mais recentes, normalmente centradas na sensualidade luxuriosa, nos comentários paupérrimos e invejosos, na luta desgrenhada pelo dinheiro como fonte primordial de “inspiração” etc.
Já no aspecto metafísico, o sistema desconstrucionista, ao sugerir a creatio ex nihilo, um atributo divino, leva ao extremo o pecado do orgulho, que, na simbologia cristã, foi a causa das duas quedas bíblicas: a de Lúcifer e a de Adão, ambos por tentarem se igualar a Deus. Um dos meus mestres, o compositor Elomar Figueira Melo, disse-me uma vez que o mal do artista moderno é o orgulho. Para ele, toda arte é inspiração divina, pois é nesse ato que o homem se torna a imagem de Deus. Creio não ser desnecessário enfatizar que a imagem só existe como reflexo de um ente original. Isso coloca, ainda, em relevância o fato dos pensadores clássicos considerarem as obras da Natureza, criação divina, superiores às obras humanas.
Por fim, concluamos, pois em nossos tempos relativistas poucos têm tempo para pensar em coisas sérias, principalmente quando o propósito é um convite à reflexão. Refletir implica em aceitar a existência de algo anterior e exterior a nós, algo a que devemos nos posicionar de frente e contemplar. É esse o meu convite a todos os criadores de todas artes. Criar é um dom, que merece dedicação extrema. E o primeiro passo é a formação intelectual, filosófica. Vamos nos alimentar primeiro: dos fatos, da realidade. Vamos estudar, com sinceridade, o quase incomensurável acervo da nossa cultura e da história particular e universal. Ao proceder assim, nutrimos a possibilidade de criar, de fato, obras eternas, que possam servir de luz ao mundo.
Não tenham dúvida: apenas a verdadeira arte é imortal, o resto é passatempo, é falta do que fazer, é meio de ganhar dinheiro fácil, é subterfúgio para revelar desvios de comportamento; em suma, é qualquer coisa, mas não é criação, no sentido sublime do termo.
Façamos luz, colegas. Isso é tudo.