sexta-feira, 27 de julho de 2007

COMENTÁRIO CONSTRUTIVO



“Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.”
A Última Nau – Fernando Pessoa

Fiat Lux é uma expressão latina de profundo cunho filosófico e metafísico. A frase bíblica, traduzida como “faça-se a luz”, sintetiza o ato da criação. É um tema que ocupou a mente dos homens intelectualmente mais brilhantes do nosso mundo, de Parmênides a Leibniz, passando por São Tomás de Aquino, e continua presente, mesmo nas manifestações culturais mais inesperadas da atualidade, como nas Histórias em Quadrinhos, no cinema e nos livros de Ficção Científica.
Filosoficamente, o assunto é especialmente pertinente à classe artística, que goza do status de criadora por excelência. Isso é tão significativo para mim, que o fato de não ter me aprofundado o suficiente nesse debate de gigantes pelas dobras dos séculos, faz refrear algumas pretensões artísticas que a vaidade possa me insuflar. Ainda assim, pelo pouco que consegui absorver do tema, parece-me claro que, no campo da atuação humana, toda criação parte de uma realidade preexistente para uma supra realidade imaginada. É esse mesmo o conceito original de Poesia desenvolvido por Aristóteles e que abarcava a criação artística em geral. Nesse sentido, o gênio do artista concebe mentalmente a sua obra a partir da readequação dos dados concretos acumulados pela sua experiência e capacidade de observação. O resultado final ou a manifestação criativa surge, então, como uma readequação ou recomposição da realidade em que é possível distinguir criador, matéria-prima e criatura.
O conceito do ato criativo a partir do nada – creatio ex nihilo - só surgiu com a tradição hebraica cristã e já penetra na esfera da divindade. São Tomás de Aquino explora isso à exaustão. Somente Deus pode emanar de Si uma substância plástica que serve de matéria para o universo concreto. É ao mesmo tempo, o moldador, o molde e a obra moldada, numa síntese abstrata que remete à Santíssima Trindade.
O assunto é estupendamente vasto e profundo e requereria milhares de palavras mais sábias que as minhas, portanto vamos entrar na questão que me interessa particularmente. Considerando a impossibilidade humana da criação a partir do nada, fica notória a necessidade permanente de preparação do artista para abastecer de experiências seu banco de dados mental de onde a imaginação retirará a base para criar a obra de arte como conceito e plano. A etapa seguinte é a concretização da idéia através da técnica artística, que pode ser a escultura, pintura, escrita, dramaturgia etc.
Transpondo este discurso para a realidade, o que observo é o crescimento desproporcional dos artistas no campo da técnica. Nós temos atores ecléticos, músicos e instrumentistas virtuoses, cineastas engajados, artistas plásticos premiadíssimos, escritores atuantes e por aí vai. Isso é muito bom, mas não acho que seja suficiente. Faltam criadores, na acepção maior do termo. E por mais que os agentes culturais discutam questões como identidade, inovação, tradição etc., acredito que a solução para esses temas passa mais pela área da criação do que da técnica.
Também não creio que esse problema seja uma particularidade local ou regional, mas uma anomalia geral que assola o país e, por que não dizer, o mundo. O ato criativo está em crise. Falta-me a erudição necessária para rastrear suas origens mais remotas, mas tenho independência e clareza mental suficientes para detectar que uma das bases do problema é o relativismo desconstrucionista, que vampiriza a inteligência de grande parte da intelectualidade.
Ora, a mente humana procede internamente apenas num caráter ordenativo, organizando os dados caóticos captados pelos sentidos em categorias que servem, posteriormente, para alimentar a memória e a imaginação, entre outras funções psicológicas. Tradicionalmente, o trabalho intelectual, incluindo o de artistas, tinha como preocupação maior absorver esses dados diretamente e o mais fielmente possível da realidade. Desse modo, era possível construir hipóteses e obras a partir de um universo concreto e que, por isso, ajustavam-se ou correspondiam às possibilidades cabíveis em um mundo real. Dizia Aristóteles que a função da Arte é representar o possível e, com isso insere a Poética no conjunto dos discursos aristotélicos, junto com a retórica, que trata do verossímil; a dialética, que versa sobre o provável; e a lógica ou analítica, que é a demonstração certa de um silogismo. Isso foi previsto pelo filósofo islâmico Avicena e comprovado pelo brasileiro Olavo de Carvalho em Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos (Rio, É Realizações, 2006). Nesse sentido, o poético e o dito científico são etapas distintas do discurso humano, mas de igual importância para a formação das consciências individuais e do conjunto do pensamento e ação coletivos que chamamos cultura.
A partir do momento em que nega a veracidade dos dados reais, o Desconstrucionismo libera a mente para criar, a partir do nada, as bases que a inteligência utilizará para produzir conhecimento. O resultado menos maléfico disso é a subversão da ordem natural das coisas. Por mais fantasiosa que seja uma obra, o público receptor, conscientemente ou não, consegue captar dali os pressupostos da realidade que, recombinados, lhe serviram de tijolos estruturais. Exemplo: por trás de toda a grandiosidade imaginativa de O Senhor dos Anéis, do escritor inglês John R. Tolkien, não tem como negar a presença de valores cristãos, amalgamados à mitologia e à lingüística anglo-saxã. Ou seja, duas forças culturais que, historicamente, moldaram o povo inglês.
Pois bem, na medida em que deixa de ser simulacro da realidade - simulacro não é cópia fiel de algo, mas uma recriação a partir de um original pré-existente – a arte não apenas deixa de ser aplicável positivamente ao real, mas induz, inconscientemente, à crença num pseudo-universo existente apenas na cabeça do criador desconstrucionista. Nesse relativismo geral, qualquer um pode dar à luz sua própria fantasia autogerada, transformando o conjunto social em um caos, onde os fatos e fenômenos nada mais significam e toda tentativa de ordem dissolve-se na barafunda mental reinante. Isso é fatal, especialmente para os jovens, que não têm como perceber uma cultura condizente com a realidade observável que lhes sirvam de base de aprendizado e de ponto de partida para o futuro.
Todo esforço civilizante dá-se no sentido de estabelecer valores que se sobreponham aos instintos animais presentes no homem. É natural que essa própria natureza dúbia do ser humano seja um empecilho à concretização da civilização perfeita, criada pelo uso sublime da razão e mantida à duras penas no processo histórico. É ainda lógico que se o intelecto renega as bases da civilização, sua cria, tende a retornar à animalidade intrínseca do homem, agora potencializada pela inteligência. É o retorno ao domínio total dos instintos, à barbárie, como já profetizou o filósofo Mário Ferreira dos Santos.

“Na verdade, a invasão que é a penetração gradual e ampla dos bárbaros não só se processa horizontalmente pela penetração no território civilizado, mas também verticalmente, que é a que penetra pela cultura, solapando os seus fundamentos, e preparando o caminho à corrupção mais fácil do ciclo cultural, como aconteceu no fim do império romano, e como começa a acontecer agora entre nós." (A invasão vertical dos bárbaros)


Admitindo-se que a criação a partir do nada é impossível para a estrutura funcional da mente humana, a imaginação do artista desconstrucionista, para agir, é obrigada a recorrer aos substratos inconscientes da nossa herança animalesca. Com isso, negligencia os compromissos com a realidade e com os princípios superiores que dão coesão à nossa aventura civilizacional e foca apenas o interesse egoístico; isso quando não se perde na bestialidade dos instintos. Tal atitude explicaria a grosseria das manifestações artísticas mais recentes, normalmente centradas na sensualidade luxuriosa, nos comentários paupérrimos e invejosos, na luta desgrenhada pelo dinheiro como fonte primordial de “inspiração” etc.
Já no aspecto metafísico, o sistema desconstrucionista, ao sugerir a creatio ex nihilo, um atributo divino, leva ao extremo o pecado do orgulho, que, na simbologia cristã, foi a causa das duas quedas bíblicas: a de Lúcifer e a de Adão, ambos por tentarem se igualar a Deus. Um dos meus mestres, o compositor Elomar Figueira Melo, disse-me uma vez que o mal do artista moderno é o orgulho. Para ele, toda arte é inspiração divina, pois é nesse ato que o homem se torna a imagem de Deus. Creio não ser desnecessário enfatizar que a imagem só existe como reflexo de um ente original. Isso coloca, ainda, em relevância o fato dos pensadores clássicos considerarem as obras da Natureza, criação divina, superiores às obras humanas.
Por fim, concluamos, pois em nossos tempos relativistas poucos têm tempo para pensar em coisas sérias, principalmente quando o propósito é um convite à reflexão. Refletir implica em aceitar a existência de algo anterior e exterior a nós, algo a que devemos nos posicionar de frente e contemplar. É esse o meu convite a todos os criadores de todas artes. Criar é um dom, que merece dedicação extrema. E o primeiro passo é a formação intelectual, filosófica. Vamos nos alimentar primeiro: dos fatos, da realidade. Vamos estudar, com sinceridade, o quase incomensurável acervo da nossa cultura e da história particular e universal. Ao proceder assim, nutrimos a possibilidade de criar, de fato, obras eternas, que possam servir de luz ao mundo.
Não tenham dúvida: apenas a verdadeira arte é imortal, o resto é passatempo, é falta do que fazer, é meio de ganhar dinheiro fácil, é subterfúgio para revelar desvios de comportamento; em suma, é qualquer coisa, mas não é criação, no sentido sublime do termo.
Façamos luz, colegas. Isso é tudo.

Nenhum comentário: